Flamengo e Fluminense entram em campo no Maracanã na noite desta quarta-feira (30) para começar a decidir o Campeonato Carioca 2022. Será mais um capítulo na história de 110 anos do clássico mais famoso do Brasil. Desde o momento em que rubro-negros e tricolores entraram em campo pela primeira vez, em 7 de julho de 1912, a mística do Fla x Flu nasceu junto. É o clássico mais colorido, o mais charmoso, seu apelido tornou-se expressão de uso amplo na língua portuguesa, suas edições épicas foram contadas em prosa, verso, tintas e notas. O Fla x Flu faz parte da história e da cultura brasileira. Explica o país e também é explicado por ele.
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Fla x Flu, o clássico eterno
Escritor, cronista e fundador do teatro moderno brasileiro, Nelson Rodrigues foi figura fundamental no desenvolvimento da mística do clássico. Seus textos sobre futebol, publicados por quase quatro décadas nos jornais do Rio de Janeiro, foram o veículo para a popularização de frases imortais e personagens inesquecíveis. Para Nelson, o Fla x Flu era como o romance Irmãos Karamazov, de Dostoyevski. Tratava-se de uma rivalidade fraterna, já que o departamento de futebol rubro-negro nasceu de uma dissidência no tricolor. Foi Nelson que disse que o Fla x Flu começou 40 minutos antes do nada. Foi ele que não desculpou nem os mortos por faltarem à decisão do Carioca de 1969, que terminou com vitória tricolor por 3 x 2 e título. Sobre esse jogo, escreveu talvez uma das suas maiores crônicas.
Sobre a camisa do Flamengo, Nelson cunhou uma de suas passagens imortais: “Para o Flamengo a camisa é tudo. Já tem acontecido várias vezes o seguinte:- quando o time não dá nada, a camisa é içada, desfraldada, por invisíveis mãos. Adversários, juízes, bandeirinhas, tremem, então, intimidados, acovardados, batidos. Há de chegar talvez o dia em que o Flamengo não precisará de jogadores, nem de técnicos, nem de nada. Bastará à camisa, aberta no arco. E diante do furor impotente do adversário, a camisa rubro-negra será uma bastilha inexpugnável.”
Mário Filho é o pai do Fla x Flu
Se o tricolor Nelson Rodrigues transformou o Fla x Flu em matéria de sonhos, coube ao seu irmão mais velho, o rubro-negro Mário Filho, popularizar o apelido do confronto e eleva-lo a condição de super-clássico. Visionário, Mário Filho é o responsável por várias das referências culturais do Rio de Janeiro e do Brasil. Foi o criador dos concursos das Escolas de Samba e dos jogos escolares, o Maracanã tem seu nome pois ele foi o maior incentivador pela construção do estádio. Mário Filho foi também o modernizador da cobertura jornalística do futebol, incluindo o dia a dia dos clubes e a vida cotidiana dos craques nas páginas dos jornais, alçando-os a condição de ídolos e aumentando dramaticamente o envolvimento das pessoas com o futebol.
Fla x Flu virou expressão popular
Mais que um jogo, o Fla x Flu virou uma idéia e uma expressão linguística. O termo passou a significar rivalidade acirrada, disputa e até briga. Nas páginas de política, não é incomum se ler que há “um clima de Fla x Flu no Congresso”.
“O uso do Fla-Flu fora do futebol seria uma linguagem que chamamos de metafórica: passa a ser usado para qualquer tipo de rivalidade, disputa. Entra pelo caminho da analogia. Como o Fla-Flu sempre refletiu uma rivalidade famosa, passou a ser usada em sentido mais geral”, explicou a O Globo o professor Sérgio Nogueira.
Curiosamente, o Fla x Flu tornou-se também sinônimo de jogo de crianças no Rio Grande do Sul. O brinquedo que cariocas conhecem como totó e os paulistas como pebolim, os gaúchos chamam de Fla x Flu. A O Globo, Nogueira explica essa preferência gaúcha pelo apelido do clássico carioca na terra do Grenal: “Há a questão da sonoridade. Até uma criança consegue falar. É algo que não acontece com outros clássicos, que têm apelidos como Atletiba (Atlético-PR x Coritiba) ou Gre-Nal.”
E o “Ai Jesus”?
Ainda no campo da linguística, um trecho do hino do Flamengo composto por Lamartine Babo é usado pelos tricolores como provocação. Diz o hino rubro-negro: “E nos Fla-Flus, é o ai Jesus.” Para os torcedores do pó de arroz, trata-se de um reconhecimento de que jogar com o Fluminense é sempre um sufoco.
Já os flamenguistas tem uma visão diferente. O professor Deonísio da Silva, especialista em etimologia da Língua Portuguesa, explica. “Na verdade, o ‘Ai, Jesus’ do hino significa que o Flamengo é o “mais cotado”, o favorito nos Fla-Flus. Ai-jesus designa o queridinho, o muito amado, o xodó, o predileto. A expressão caiu em desuso, mas está no Hino do Flamengo”.
A televisão e o rádio levaram o Fla x Flu para todo o brasil
O mundo não foi sempre esse emaranhado de mídias, onde se recebe informação por todos os lados, a partir das redes sociais. Por quase 100 anos de comunicação de massa, primeiro o rádio e depois a televisão tiveram os papeis de formar a consciência coletiva brasileira. E o Fla x Flu se beneficiou enormemente disso. Por décadas, os jogos entre Flamengo e Fluminense foram transmitidos para todo o Brasil pelas ondas da Rádio Nacional e demais rádios do Rio de Janeiro. Quando a televisão se popularizou nos lares, mais uma vez o futebol carioca estava no cardápio. Hordas de torcedores se formaram ao ouvir os relatos heróicos dos craques de Flamengo e Fluminense.
E não foi apenas nas transmissões de futebol que a fama do clássico cresceu. O Fla x Flu foi tema de quadros de humor, músicas, livros, personagens de novelas, etc. Na música popular, Jorge Benjor, Chico Buarque, Paulo Ricardo (do RPM), João Nogueira, entre outros, cantaram o clássico para multidões.
O Clássico para sempre
Mesmo com toda a ajuda extra-campo, foi dentro das quatro linhas que a mística do Fla x Flu se solidificou. São 110 anos de jogos inesquecíveis. Teve o Fla x Flu da lagoa, em 1941, quando os tricolores chutaram bolas para fora do estádio da Gávea e o Flamengo colocou seus remadores para devolve-las mais rápido. Teve o Fla x Flu de 1963, com mais de 194 mil pessoas no Maracanã, até hoje o maior público em jogo de clubes na história do futebol mundial.
Tiveram os Fla x Flus do casal 20, Washinton e Assis, carrascos do Flamengo. Teve o Fla x Flu do gol do Leandro, em 1985. Teve o Fla x Flu da despedida do Zico, em 1989. Teve o Fla x Flu do gol de barriga em 1995, o último grande campeonato estadual. Do lado ruim, teve o Fla x Flu do Estadual de 2002, com menos de 100 pagantes, na Rua Bariri.
No jogo desta noite, mais uma vez com o Maracanã lotado, Flamengo e Fluminense vão escrever um novo capítulo nessa história de 110 anos. Que Gabigol, Cano, Arrascaeta, Luis Henrique encarnem os espíritos de craques ancestrais e garantam mais uma jornada imortal. Nas palavras de Nelson Rodrigues, nem os mortos tem desculpas para não irem ao Maracanã.